“Quando ainda estava longe, seu pai o avistou e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos.” Lc 15, 20
A Quaresma é um tempo de retorno, um convite à introspecção para reconhecer nossa fragilidade e a necessidade do amor de Deus, que nos transforma. O Evangelho deste domingo nos revela que a misericórdia do Pai nos antecede: Ele não espera passivamente nossa volta, mas, movido de compaixão, corre ao nosso encontro, nos acolhe e nos restaura.
O filho mais novo, ao pedir sua herança e partir, buscava uma liberdade que o afastava do essencial: o relacionamento com o Pai. Sua busca por autonomia o conduziu à solidão, à miséria e à perda de sentido. Porém, ao tocar o fundo do poço, ele recorda não apenas a casa paterna, mas a dignidade que ali possuía. Esse movimento de recordar e reconhecer é o primeiro passo da conversão: perceber que, longe do Pai, nossa vida perde seu brilho, e é necessário retornar.
Mas o retorno não acontece sozinho. O Pai não se limita a esperar; Ele vê de longe, corre ao encontro do filho, o abraça e o restaura. O Venerável Padre Jean Gailhac nos ensina: “O pecado é o túmulo. Quem é escravo do pecado está no túmulo. Os maus hábitos são também um túmulo.” (GS/26/III/77/A*). O filho pródigo vivenciou essa morte interior, marcada pela separação de Deus e pela escolha de um caminho de desordem e solidão. Mas ao retornar, ele encontra um Pai que não busca castigá-lo ou humilhá-lo, mas restaurá-lo à sua dignidade de filho. O Pai não quer servos, mas filhos vivos. A ressurreição que Ele oferece é uma verdadeira transformação. O anel no dedo, a túnica nova e as sandálias nos pés são sinais claros dessa nova vida. O filho não apenas volta para casa; ele renasce, em um amor que cura e restaura. Como diz Padre Gailhac: “Amar é ressuscitar e ressuscitar é amar.” (GS/26/III/77/A*). Esta é a experiência da nova vida em Cristo, onde a misericórdia de Deus não apenas nos perdoa, mas nos faz renascer, devolvendo-nos o vigor da verdadeira vida: uma vida de amor, comunhão e liberdade.
A parábola também nos leva ao coração do filho mais velho. Embora nunca tenha saído fisicamente, ele estava distante em seu modo de pensar. Ele serviu o Pai, mas não compreendeu Seu amor. Sentiu-se injustiçado ao ver o irmão acolhido com festa. Sua reclamação reflete um coração endurecido, que mede o amor com pesos e medidas, esquecendo-se de que o amor de Deus não se baseia em merecimento, mas em pura graça.
E nós, onde nos encontramos nesta história? Somos aqueles que partem e precisam voltar? Somos aqueles que julgam e precisam aprender a acolher? Ou somos chamados a ser como o Pai, dispostos a correr ao encontro daqueles que retornam?
A Quaresma nos desafia a sair dos nossos próprios túmulos, a abandonar os hábitos que nos aprisionam e a despertar para uma vida renovada. O Padre Gailhac insistia continuamente nesse pensamento: “Chegou a hora de sairmos do sono da morte. Jesus Cristo ressuscitou. Saiamos do túmulo do pecado, despojemo-nos dos maus hábitos, abandonemos a vida tíbia, descuidada e ressuscitemos com Jesus Cristo, cantemos o grito da vitória, o grito da vida.” (GS/26/III/77/A*). Reconhecer nossos erros é apenas o primeiro passo. O verdadeiro caminho da conversão exige ação concreta, onde o amor de Deus nos transforma de dentro para fora, nos fazendo verdadeiramente novos.
Que neste tempo de Quaresma, possamos redescobrir a alegria de sermos filhos amados e a graça de sermos irmãos. E, como nos ensina Padre Gailhac, que possamos “Amar para sairmos do túmulo e sair do túmulo para amar.” (GS/26/III/77/A*). A verdadeira ressurreição acontece quando escolhemos viver esse amor transformador, que nos tira da morte e nos conduz à vida plena.
Ir. Daniela Santos